Tchau, Terra Madre!

25/03/2010


Mel nativo de abelha Jandaíra, obtido no RN pelos Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço (Joca)

Hoje saiu no caderno Magazine do jornal Popular (daqui de Goiânia) uma pequena matéria que escrevi, com um balanço do II Terra Madre Brasil.

Aí vai:

Ética e prazer na alimentação

Alimentos locais e orgânicos, além de produtores remunerados adequadamente, reúnem adeptos do Slow Food em Brasília (DF)

Elisa Almeida França

Especial para O POPULAR (de Brasília)

Em uma segunda edição mais madura e produtiva que a primeira, o Terra Madre Brasil reuniu mais de 500 pessoas no último fim de semana, em Brasília. O objetivo foi promover a articulação entre os membros da rede de mesmo nome, formada por pequenos produtores agrícolas, chefes de cozinha e acadêmicos, além de associados ao movimento Slow Food, que promoveu o evento. Os temas discutidos iam desde a educação alimentar, passando pelo consumo consciente e o estabelecimento de formas de comercialização de alimentos.

Entre os goianos, o encontro recebeu representantes dos descendentes de quilombolas que produzem a marmelada de Santa Luzia, em Luziânia; produtores da castanha de baru, de Pirenópolis; agricultores orgânicos do município de Padre Bernardo; e professores e estudantes do curso tecnológico de gastronomia da Universidade Estadual de Goiás (UEG). “Houve um aumento na participação de representantes do Centro-Oeste, agora precisamos dar continuidade a essa rede”, afirma Kátia Karam, professora de antropologia da alimentação na UEG e líder do convívio do Slow Food (veja quadro) em Pirenópolis – cidade goiana com o maior número de participantes. “Também houve entrosamento maior e, consequentemente, um melhor aproveitamento do encontro”, completa.

Sob o mote do alimento “bom, limpo e justo” e a égide da ecogastronomia (veja quadro), agricultores e extrativistas de regiões tão distintas e distantes quanto a localidade de Cabeço, no Rio Grande do Norte, e Palhoça, em Santa Catarina, ofereceram a degustação do mel da abelha nativa Jandaíra, da bijajica (um tipo de cuzcuz) e do licuri (um pequeno coco encontrado na Bahia), durante a Feira da Identidade Alimentar, que fazia parte da programação. Representando Goiás, esteve presente a já famosa castanha de baru, que é uma “fortaleza” da Fundação Slow Food para a Biodiversidade – projeto que auxilia produtores a preservar seu trabalho.

O evento foi o primeiro contato de William Rocha, chefe de cozinha da Pousada dos Pireneus, em Pirenópolis, com a rede Terra Madre. “Muitas vezes a gente quer trabalhar com produtos do Cerrado e não tem acesso, não sabe onde comprar”, diz. Por isso, conhecer a Central do Cerrado, organização que funciona como ponte entre produtores comunitários e fornecedores que participou do encontro, já lhe valeu a viagem até a capital federal.

Planeta
Carlo Petrini, jornalista que fundou o Slow Food, há 20 anos, participou do encerramento do Terra Madre, na tarde da segunda-feira. Segundo ele, nos últimos seis anos a rede Terra Madre, atuante em 158 países, se desenvolveu muito. “Lentamente, mas adiante”, define.

Para o italiano, a produção industrial de alimentos é a maior responsável pela destruição do planeta. “Os carros também são responsáveis, mas o sistema alimentar é mais”, afirma. Por isso, Carlo Petrini defende a pequena produção tradicional e diversificada, embora reconheça a dificuldade da proposta. “A força da publicidade é enorme, e as crianças passam horas em frente à TV. Temos um grande trabalho pela frente”.

Outra ideia cara aos preceitos do Slow Food é o papel desempenhado pelo consumidor. “O consumo é a última parte do processo produtivo”, afirma Petrini. Não é uma prática à parte. Afinal, com seu poder de escolha é o consumidor que patrocina este ou aquele tipo de produção. “Àqueles que dizem que o Slow Food é elitista e que os alimentos orgânicos são caros, digam-lhe que, na realidade, o alimento industrial é que é o mais caro”, diz. “Ele destrói o solo, consome muito dióxido de carbono no transporte, acaba com o lençol freático e, o mais importante, é danoso à saúde”.

No encerramento, também participaram o presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Sérgio Mamberti; o secretário de Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Humberto Oliveira; o representante do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), Willem Bettink; entre outros. Ao final, uma apresentação musical, com o Coral Guarani Tenode Porã (São Paulo) e o grupo de forró da Fortaleza do Umbu (Bahia), fechou o encontro com chave de ouro.

Balanço
Entre os resultados concretos do 2º Terra Madre, projetos nascidos nos corredores ou dentro da própria programação, e a proposta de criação de uma certificação socioparticipativa, que seria levada adiante pelos próprios produtores. Isso porque as certificadoras cobram caro pelo serviço, muitas vezes impondo regras estranhas à realidade dos agricultores. Também foram organizadas reuniões entre as diferentes categorias de participantes, assim como encontros regionais.

“Com esse evento, a gente conseguiu fortalecer muito o movimento e possibilitar o intercâmbio de informações”, afirma Lia Poggio, coordenadora do Slow Food para a América Latina. Segundo ela, o apoio do Ministério da Cultura, dado ao Terra Madre pela primeira vez, foi fundamental. “O Slow Food é um movimento gastronômico e político, mas sobretudo cultural”. O movimento está presente, hoje, em 192 países.

Mais informações:
Livro:
Slow Food – Princípios da Nova Gastronomia, de Carlo Petrini, editora Senac
Site do Terra Madre Brasil: www.terramadre.slowfoodbrasil.com
Site do Slow Food Brasil: www.slowfoodbrasil.com
Blog Nós Consumimos: www.nosconsumimos.wordpress.com

Conceitos do Slow Food:

Bom: Relacionado ao sabor e ao aroma do alimento, frutos de boas matérias-primas e métodos de produção.

Limpo: Com respeito ao meio ambiente, a partir de práticas sustentáveis de produção do alimento.

Justo: Diz respeito às condições de trabalho e à remuneração do pequeno produtor.

Ecogastronomia: Ética e prazer na alimentação, com respeito ao agricultor tradicional e com o uso sustentável da biodiversidade.

Convívio: Grupo local do movimento, que promove encontros para desfrutar e colocar em prática os produtos e as ideias do Slow Food.

Produtores de Pirenópolis que participaram do encontro

Para acessar os posts anteriores sobre o II Terra Madre Brasil, clique aqui, aqui, aqui e aqui!

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3 Respostas to “Tchau, Terra Madre!”


  1. Amiga, tenho um desafio pra vc… Que escolinha, em Gyn, vc me indicaria que tem os requisitos necessários para uma alimentação saudável, na merenda escolar, para crianças de 3 aninhos?


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